DIAi – O Meu Perfil de Gestora (ipGP-21).
Foto_retrato: Abertina.D
Após preencher o inventário do perfil do Gestor de Projetos (ipGP-21), o exercício de auto-análise obrigou-me a um confronto direto e, confesso estar desconfortável com as minhas próprias fragilidades. Ao cruzar o meu perfil com o modelo teórico de competências, percebi que o contexto organizacional disfuncional em que estou inserida moldou profundamente os meus bloqueios comportamentais, especialmente na forma como comunico e reajo sob pressão.
As Minhas Fragilidades à Luz da Teoria
A primeira grande lacuna que identifiquei foi o receio de demonstrar iniciativa. A literatura defende que a iniciativa e a proatividade são vitais para qualquer gestor de projetos. Contudo, no meu contexto de trabalho, a vontade de agir foi repetidamente travada por feedbacks castradores da chefia (comentários como só faço o que quero, ou chegou ontem e já quer mandar). Esta postura gerou paralisia por antecipação, comprometendo significativamente a minha autonomia.
A segunda e mais profunda fragilidade reside na perda de autocontrolo e no défice de assertividade na comunicação oral. A literatura define o autocontrolo como a habilidade de monitorizar os fatores emocionais e agir de forma consciente, mesmo em situações de elevado stress. Paralelamente, a tolerância é descrita como a capacidade de lidar com a pressão mantendo a postura profissional. Reconheço portanto, que falho nestes pontos. Como o ambiente no meu serviço é pautado por tensões constantes, quando o meu trabalho é escrutinado ou criticado, a minha tendência é ficar nervosa. Sinto dificuldade em defender-me verbalmente de forma estruturada e acabo por me exaltar, perdendo a flexibilidade na abordagem.
Este nervosismo gerou um mecanismo de defesa. O refúgio na comunicação escrita. Para evitar gerir o ruído ou os conflitos presencialmente, prefiro recorrer exclusivamente ao e-mail ou a plataformas de mensagens. Na escrita sinto-me segura, imune a interrupções e consigo ser altamente assertiva e organizada. No entanto, no confronto oral direto, essa assertividade perde-se.
Plano de ação
Proponho três medidas concretas de melhoria para colmatar estas fragilidades e promover o meu desenvolvimento comportamental, seguintes ações:
- Reconquistar a Iniciativa através da proatividade documentada - Para contornar o receio de represálias ao demonstrar proatividade, passarei a estruturar as minhas ideias como propostas formalmente fundamentadas em dados. Apresentarei estas iniciativas primeiramente por escrito, aproveitando a minha zona de conforto comunicacional. Isto retira o peso da mera opinião pessoal, evita que a chefia sinta a proposta como uma imposição e transforma a iniciativa numa sugestão técnica.
- Desenvolver o "distanciamento emocional" face ao conflito para mitigar a quebra de autocontrolo em situações de tensão, adotando a técnica do distanciamento emocional. Na prática, sempre que for alvo de uma abordagem verbal agressiva, imporei a mim mesma uma pausa tática (respirar fundo e pausar três segundos) antes de responder. O objetivo é treinar a inteligência emocional para não absorver a crítica como um ataque pessoal, respondendo de seguida com perguntas objetivas (ex: pode dar-me um exemplo específico de onde falhei para podermos corrigir?). Isto ajudará a desarmar o tom hostil do interlocutor e impedirá a minha exaltação.
v Transpor a assertividade escrita para a esfera verbal (uso de Scripts). Reconhecendo que a gestão de projetos exige a capacidade de gerir conflitos e transmitir segurança oralmente, não posso continuar a evitar o diálogo verbal. A minha ação passará pela planificação prévia das interações. Passarei a preparar roteiros de argumentação antes das reuniões ou confrontos previsíveis. Ao estruturar os pontos essenciais no papel, tal como faria num e-mail, utilizarei esse guião como âncora para manter o foco, a calma e a assertividade, sem me deixar dominar pelo nervosismo.
Diário de Aprendizagem (DIAi) – Tarefa 2 (Continuação)
Aplicação de Instrumentos – Avaliação da Liderança (ELE-20)
Para a segunda parte desta tarefa, apliquei a escala de liderança Ética (ELE-20) com o intuito de avaliar a chefia direta do meu departamento no setor público. A escala exige a avaliação da perceção da liderança em dimensões críticas como a integridade, a justiça, o respeito, a responsabilidade e a transparência. Este revelou-se um exercício profundamente esclarecedor, pois permitiu desconstruir, à luz da ciência, os comportamentos e as dinâmicas disfuncionais com os quais lido diariamente no contexto profissional.
Pontos Fortes, Fragilidades e (in)coerência ética
Sendo intelectualmente honesta, é possível atribuir como ponto forte à minha chefia o seu domínio técnico e o profundo conhecimento burocrático do serviço. No entanto, no que concerne à dimensão ética e comportamental, a avaliação revela uma acentuada fragilidade e incoerência.
A literatura define a liderança ética como a demonstração de uma conduta honesta, zelosa e pautada por princípios morais, na qual o líder toma decisões justas e atua como um modelo proativo de conduta. Os resultados da observação suportada pela escala ELE-20 apontam exatamente para o espetro oposto. O perfil traçado aproxima-se do que os estudos caracterizam como uma liderança narcisista, assente na ausência de vínculos de cooperação e na propensão para adotar comportamentos competitivos contra a própria equipa, em vez de fomentar o desenvolvimento coletivo.
A escassez de justiça e de transparência espelhada na forma como as minhas formações foram desvalorizadas e a minha avaliação de desempenho foi imposta de maneira arbitrária evidencia uma fragilidade ética. Esta tipologia de chefia demonstra dificuldade em valorizar as novas ideias e o talento dos subordinados, optando por mitigar a iniciativa da equipa através de comentários depreciativo.
A antiguidade face a Competência
Ao analisar esta liderança narcisista, percebe-se que o problema é alimentado pela própria estrutura tradicional do nosso serviço público. A teoria critica os métodos de avaliação tradicionais por considerarem os colaboradores como elementos homogéneos e padronizados, tornando os processos de gestão excessivamente burocráticos, rotineiros e inflexíveis. Nesses sistemas mais rígidos, a avaliação desconsidera as verdadeiras competências e o potencial humano, focando-se apenas em aspetos formais.
O resultado prático desta dinâmica é que o poder e o valor acabam por ser ditados pela antiguidade e não pelo mérito demonstrado na ação. É neste cenário que emergem comentários castradores como, <chegou ontem e já quer dar palpites>. Para uma chefia insegura, o facto de um subordinado demonstrar competência acrescida ou vontade de inovar torna-se irrelevante, o que prevalece é o tempo de casa, utilizado como um escudo para justificar a autoridade absoluta e asfixiar a introdução de novas metodologias.
O Impacto da liderança na equipa
Estudos empíricos provam que os líderes éticos influenciam positivamente os colaboradores, tornando-os mais envolvidos, satisfeitos e persistentes nas suas tarefas, o que eleva o desempenho geral da organização. No meu departamento, o impacto desta ausência de ética é severo, criando um ambiente dominado pelo que a literatura designa de <efeito sombra>. A chefia interage com a equipa não com base no mérito, mas através da perceção constante de que o talento alheio constitui uma ameaça à sua posição.
Este ambiente de sobrevivência é agravado por uma cultura organizacional que, historicamente, premeia a antiguidade em detrimento da competência. Quando as soft skills e a inovação são anuladas pela rigidez da hierarquia do tempo de serviço, os colaboradores perdem o compromisso emocional com a missão do serviço público. O receio de represálias e os atritos verbais instalam um clima de constante defesa, levando a que a equipa (tal como identifiquei na minha própria autoanálise no ipGP-21) se isole, evite a comunicação oral e reduza totalmente a sua proatividade.
Proposta de questão de investigação
Com base nesta reflexão profunda sobre o impacto de uma liderança desprovida de ética no ecossistema do setor público, formulo a seguinte questão de investigação para futuros trabalhos académicos na área da Gestão de Recursos Humanos:
De que forma a perceção do <efeito sombra> e a prevalência da antiguidade sobre o mérito, nos sistemas tradicionais de avaliação, influenciam a motivação intrínseca, o autocontrolo e a proatividade dos colaboradores nas organizações do setor público?
Bibliografia
Alves, M. F. R. (2016). Conceção de um modelo de avaliação de desempenho por competências numa PME [Projeto de mestrado, Universidade do Minho]
Dias, M. M. P. R. (2013). As competências dos gestores de projetos nos diferentes tipos de projetos [Tese de mestrado, Universidade do Minho]
Jardim, J. (2025). Gestão de projetos: Fundamentos, desafios e investigação.SkillsResearch
Marzagão, D. S. L., & Carvalho, M. M. (2016). A influência das competências comportamentais dos líderes de projetos no desempenho de projetos Seis Sigma. Revista Brasileira de Gestão de Negócios, 18(62), 609-632. https://doi.org/10.7819/rbgn.v18i62.2450.
Vilar, J. G. P., Mendonça, H., Shimabuk, R. H., & Fidelis, A. (2023). Liderança ética e desempenho: Uma revisão sistemática da literatura. Psicologia em Ênfase, 4.https://doi.org/10.70612/rpe.v4.824.